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Há 1.135 metros de altura, um dos atos de protestos mais icônicos, mais representativos e metafóricos dentro do atual contexto brasileiro ocorreu pelas mãos dos índios guaranis na sexta-feira (15/09/17). O Pico do Jaraguá, exatamente pela altitude, é perfeito para a instalação de sinais de telefonia celular e televisão. A distribuição emanada pelas antenas, no entanto, não é uma prioridade para a tribo, constituída de 700 pessoas, que cortou a transmissão em nome da terra que a pertence.

Em pleno século 21, auge da tecnologia narcisista do celular e da televisão escapista, é um momento histórico que as transmissões de sinal tenham sido interrompidas por uma parcela da população mais próxima à terra e aos costumes naturais. É praticamente um grito de socorro e desespero de quem vem sendo sumariamente limado da existência. Seres humanos em extinção que desligaram os neons da anestesia moderna.

Ato digno do realismo fantástico sul-americano distópico a qual estamos submetidos. Quem está impulsionando as medidas aflitas e transgressoras dos indígenas é o estado. Em 2015, uma portaria do Ministério da Justiça ampliou a área habitada pela etnia, que registra cerca de três hectares, para 512, o que criaria uma nova reserva indígena.

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Longe do romantismo do arco flecha e ocas, os índios do Jaraguá vivem em uma favela sem condições de saneamento básico. O cenário que se encontra no local não possui nada do paraíso retratado por Pero Vaz de Caminha. O país ainda testemunha o estrangulamento de etnias só que por restrição de terras e pobreza. A chacina secular ainda é na bala em estados mais rurais, mas na cidade se dá pelo abandono.

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Diante da nova decisão tomada em agosto desse ano, vinda do mesmo Ministério da Justiça, de revogar o tamanho da reserva para uma área ainda menor - 1,7 hectares, conforme os guaranis -, aproximadamente 600 mil pessoas da zona da capital de São Paulo, junto com os municípios de Cajamar, Mairiporã, Caieiras e Franco da Rocha, ficaram sem assistir a alguma reprise da Sessão da Tarde.

O Ministério da Justiça alega que a quantia de 512 hectares foi estabelecida sem consulta ao estado de São Paulo. Isso gera o seguinte ruído: o governo estadual procura um parceiro privado para gerenciar o Parque do Jaraguá, entre outros parques estaduais, pelo período de 30 anos para exploração de madeira e produtos provenientes da mata, assim como ecoturismo e demais serviços. 

No caminho do estado há homens, mulheres, idosos e centenas de crianças brincando de pescar no esgoto. Mas são apenas 700. E ainda por cima são índios que, convenhamos, não estão vencendo guerra nenhuma para prevalecerem enquanto etnia. 

Mesmo diante da situação desfavorável, tanto em âmbito nacional quanto no Jaraguá, ninguém tomou providência contra a revogação do Ministério com exceção dos próprios índios. Tomar a terra de quem já tem pouco seria covardia em um contexto razoável. No recente, é a remoção de um obstáculo para um negócio lucrativo. A megalópole avança e engole o que sobra de cultura indígena em São Paulo. A cidade não vai poupar uma migalha sequer. Os guaranis não combinam com a mentalidade de evolução paulista.

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Não vi mais nenhum fotógrafo, nenhum jornal, nada. Pelo jeito o que tinha pra ser falado sobre o acontecido já tinha sido escrito na reportagem que li antes de sair de casa: incêndio em favela na Zona Norte de São Paulo deixa dois mortos e barracos queimados.

Na última segunda, dia 18/07, quando cheguei à Ocupação Douglas Rodrigues, no bairro da Vila Maria, vi uma fila bem grande de pessoas que estavam fazendo o cadastro pra receber o kit da defesa civil: um colchão, uma manta e uma cesta básica. Olhei para o chão e vi várias mangueiras dos bombeiros, que fui seguindo pelas apertadas vielas da favela até me deparar com o galpão queimado.

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Os moradores me contaram que cerca de mil pessoas moravam lá dentro — um galpão que pertencia a uma empresa que funcionava no local e foi abandonado. Segundo a Ong Gaspar Garcia, a reintegração de posse do local já foi adiada pelo menos quatro vezes. E depois do incêndio da última segunda (18), no terreno só se via os fogões e geladeiras retorcidos. O resto virou cinzas.

Havia um corpo carbonizado bem no centro do galpão, o pessoal achava que era o Breno. Achavam que era ele porque faltava um pé no esqueleto e Breno, de acordo com o que me contaram, era cadeirante. Mas tudo isso se ouvia em diversas versões. A polícia informou apenas que duas pessoas morreram, sem identificá-las — o Breno e um senhor que, segundo os relatos, não queria abandonar o barraco em que vivia.

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Cheguei a comentar com um morador todo anonimato em torno do incêndio e ouvi de resposta dele: "Se fosse em um condomínio de playboy já tinha dado notícia na Europa". Infelizmente nenhuma novidade, nem pra mim, nem pro morador que procurava cobre no meio das cinzas pra vender no ferro-velho. 

Depois mais tarde eu procurei por mais reportagens sobre o incêndio e fiquei horrorizado com os comentários do leitores:

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Enquanto você vê mães com os olhos vermelhos, desnorteadas, andando onde possivelmente era o seu barraco, e pais cansados porque passaram a madrugada inteira tentando apagar o fogo e salvar as poucas coisas que tem, você vê as crianças, pouco preocupadas com o tamanho do estrago, sem entender a dificuldade que suas famílias terão para se erguer novamente. 

Mal sabem elas que existem pessoas torcendo pra que morram queimadas. Mal sabem que pessoas tomam seu café da manhã um pouco mais felizes porque uma favela queimou de madrugada.

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